postimg
Aug 2010 27

Tinha entendido tudo errado quando cheguei em São Paulo. Pensei: finalmente morarei em uma cidade mais adequada aos meus desejos e costumes, com pessoas parecidas comigo e até lugares que vendem as coisas que quero comprar, só preciso me misturar no meio de todos e em alguns meses serei um glorioso morador de uma capital global. Incógnito e cosmopolita.

Tudo errado. Nas primeiras palavras que pronunciei notei o erro em meu plano. Todos perguntavam de onde eu era por conta do sotaque, queriam saber o que estou fazendo aqui e porque vim de tão longe. Nas primeiras vezes encarei como coisa normal, talvez nem todo mundo fosse perguntar algo. Problema que sou diferente do que pensei que era. E todo mundo perguntava.

Nasci em Belém e cresci no interior do Pará em cidades como Abaetetuba, Cametá e Castanhal. E isso moldou o que sou hoje. Tentei deixar isso de lado por tempo demais, sem razão nenhuma. Não era bem uma vontade de ser outra coisa, e sim apenas a percepção falha de que eu não era índio, de que eu era um cara moderno e do mundo e essas besteiras. Auto-indulgência galopante.

Com o tempo fui me acostumando a contar minha história – tem a versão de elevador, a de mesa de bar e a de festa. Sim, lá tem jacaré e andamos em cipós. Sim, é quente pra caralho. Não, não sou de tribo nenhuma. Já, já comi jabuti e paca. Esse tipo de coisa. Fui me aproveitando da ignorância aterradora da maiorias pessoas para com o resto do país e ao mesmo tempo em que as sacaneava, ia me acostumando com a idéia de que sou um índio.

Mesmo que eu realmente não seja. Claro que em algum momento tanto os antepassados do meu pai quanto da minhã mãe praticaram aquela miscigenação clássica, mas não nasci em tribo ou cresci em uma. Não sou exatamente um índio. Resolvi assumir o título por uma simples razão: é o que esperam. Quando digo de onde sou, sei que na maioria das pessoas acende aquela luzinha na mente que indica selva, amazônia, índio e animais. Aproveito essa deixa e confirmo tudo. Até porque eu realmente tive experiências de selva, amazônia, índios e animais. E porque é mais divertido.

Vejo muitos paraenses que moram em São Paulo fazerem virtualmente o contrário. Evitam sotaque e camuflam origens a todo o custo. Não que eu tenha um grande amor por Belém ou pelo estado, da mesma forma que não tenho por São Paulo ou outra cidade em que morei (na realidade não possuo apreço específico por nenhum lugar do mundo, meio que moraria em qualquer um, há tanto território a ser explorado que eleger apenas um lugar como sua cidade me parece um retrocesso evolucionário). Mas acho uma coisa tão desnecessária e que rende tão poucos resultados positivos que chega a ser embaraçoso.

O tempo foi passando e sedimentei um pouco melhor o que sou. Um índio em uma cidade grande. Tu ficarias surpreso com a quantidade de gurias que se divertem ao saber como açaí é feito no interior do Pará e como é comer um tucunaré recém-pescado na folha da bananeira. Parece que quanto mais sou sincero com as minhas origens, mais coisas interessantes acontecem.

Agora entendo as coisas um pouco melhor.

renmero

northbender.

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    [...] This post was mentioned on Twitter by Pedro Jansen, Eurico Dias. Eurico Dias said: Como ser índio – Interessante postagem de Renmero sobre a ambientação de um nortista em São Paulo… http://bit.ly/a1iYmc Já passei por isso [...]

  • http://twitter.com/estivador_russo Juá Nakutis

    Eu no alto dos meus 2,06 mts sei muito bem o que essa curiosidade representa. Cheguei a ficar de saco cheio já e até fui rude com quem me perguntava, por exemplo, se estava frio aqui em cima. Respondia na lata: PEGA AQUI NO MEU TERMÔMETRO! rs

    Mas realmente, a melhor coisa a fazer é dar comida a quem tem fome. É dizer o que elas querem ouvir! Sim, já fui profissional do basquete (administrando vários blowjobs), sim, já tive namoradas baixinhas, sim, eu durmo com os pés pra fora da cama, sim, eu quase não caibo dentro do ônibus e por ai vai rs

  • http://meadiciona.com/brunnoapolonio Brunno Apolonio

    botei fé, rapá. :)

  • http://verbeat.org/blogs/aleph pablo

    entendo demais, índio. nunca neguei minha origem, mas só nesse ano, tendo passado cinco meses em Minas, percebi que não sou só mineiro. sou mesmo é CAIPIRA.

    não existe lugar de descanso melhor que uma cachoeira [ou uma fazenda com rede, lagoa e moda de viola], sou movido a pão de queijo, prefiro pinga a whisky e vinho, acho que praia é coisa de outro mundo e, se tiver, tomo leite que acabou de sair da vaca.

    hoje não vejo nada de paulistano em mim, e isso me inclui ainda mais na porra toda.

  • http://renme.ro renmero

    “dar comida a quem tem fome”, Juá, o maior criador de catch phrases que conheço! é bem isso mesmo, cara.

  • http://renme.ro renmero

    tu sabes bem como é ;)

  • http://renme.ro renmero

    caipira state of mind, pablo.

  • http://twitter.com/marianojr Mariano Jr

    Não precisa ir muito longe e muito menos estar em uma cidade grande para viver um pouco disso, basta ser ‘diferente’ no meio em que estás inserido.
    ‘Isso dói?’ – Dói. ‘Isso são fones de ouvido?’ – Não. ‘Porque fizeste isso?’ – Porque nasci em uma tribo indígena. ‘É por isso que eu digo… Cada vez mais nossos índios estão ficando civilizados e nossos civilizados estão virando índios…’ – jênio.

  • http://renme.ro renmero

    INDIOS FTW

  • http://www.burocrata.org/blog/archives/2010/08/31/340/dia-do-blog/ Anonymous

    [...] [...]

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  • http://www.twitter.com/passamani Andre Passamani

    Puta texto cara. Foda.

  • http://cafofo.tumblr.com.br Lou

    Tucunaré na folha de bananeira… gosto que poucos conhecem. que pena. ou que sorte. sorte. senão eu teria poucos assuntos por aí.

  • http://renme.ro renmero

    valeu, passamani. ainda vem bem mais coisas por aí.

  • http://renme.ro renmero

    é das coisas que só quem já comeu entende ;)

  • http://cafofo.tumblr.com.br Lou

    e sabe que a foto do post tem trilha sonora, né? (eu tinha esquecido de dizer isso antes)

  • http://renme.ro renmero

    não sabia não. qual é?

  • http://cafofo.tumblr.com.br Lou

    “so long, lonesome” – explosions in the sky :)

  • http://isabellices.com Isabella

    Ah, me deixem dormir, eu não consigo parar de ler o blog aquiiiiiiiiiiiiii.

  • http://renme.ro renmero

    nada seria mais adequado.

  • http://renme.ro renmero

    hahaha, assine o feed e não perca nada, Isabella ;)