Tinha entendido tudo errado quando cheguei em São Paulo. Pensei: finalmente morarei em uma cidade mais adequada aos meus desejos e costumes, com pessoas parecidas comigo e até lugares que vendem as coisas que quero comprar, só preciso me misturar no meio de todos e em alguns meses serei um glorioso morador de uma capital global. Incógnito e cosmopolita.
Tudo errado. Nas primeiras palavras que pronunciei notei o erro em meu plano. Todos perguntavam de onde eu era por conta do sotaque, queriam saber o que estou fazendo aqui e porque vim de tão longe. Nas primeiras vezes encarei como coisa normal, talvez nem todo mundo fosse perguntar algo. Problema que sou diferente do que pensei que era. E todo mundo perguntava.
Nasci em Belém e cresci no interior do Pará em cidades como Abaetetuba, Cametá e Castanhal. E isso moldou o que sou hoje. Tentei deixar isso de lado por tempo demais, sem razão nenhuma. Não era bem uma vontade de ser outra coisa, e sim apenas a percepção falha de que eu não era índio, de que eu era um cara moderno e do mundo e essas besteiras. Auto-indulgência galopante.
Com o tempo fui me acostumando a contar minha história – tem a versão de elevador, a de mesa de bar e a de festa. Sim, lá tem jacaré e andamos em cipós. Sim, é quente pra caralho. Não, não sou de tribo nenhuma. Já, já comi jabuti e paca. Esse tipo de coisa. Fui me aproveitando da ignorância aterradora da maiorias pessoas para com o resto do país e ao mesmo tempo em que as sacaneava, ia me acostumando com a idéia de que sou um índio.
Mesmo que eu realmente não seja. Claro que em algum momento tanto os antepassados do meu pai quanto da minhã mãe praticaram aquela miscigenação clássica, mas não nasci em tribo ou cresci em uma. Não sou exatamente um índio. Resolvi assumir o título por uma simples razão: é o que esperam. Quando digo de onde sou, sei que na maioria das pessoas acende aquela luzinha na mente que indica selva, amazônia, índio e animais. Aproveito essa deixa e confirmo tudo. Até porque eu realmente tive experiências de selva, amazônia, índios e animais. E porque é mais divertido.
Vejo muitos paraenses que moram em São Paulo fazerem virtualmente o contrário. Evitam sotaque e camuflam origens a todo o custo. Não que eu tenha um grande amor por Belém ou pelo estado, da mesma forma que não tenho por São Paulo ou outra cidade em que morei (na realidade não possuo apreço específico por nenhum lugar do mundo, meio que moraria em qualquer um, há tanto território a ser explorado que eleger apenas um lugar como sua cidade me parece um retrocesso evolucionário). Mas acho uma coisa tão desnecessária e que rende tão poucos resultados positivos que chega a ser embaraçoso.
O tempo foi passando e sedimentei um pouco melhor o que sou. Um índio em uma cidade grande. Tu ficarias surpreso com a quantidade de gurias que se divertem ao saber como açaí é feito no interior do Pará e como é comer um tucunaré recém-pescado na folha da bananeira. Parece que quanto mais sou sincero com as minhas origens, mais coisas interessantes acontecem.
Agora entendo as coisas um pouco melhor.
northbender.
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