Venho de uma família que não encara mudanças muito bem. Que tem fixação por “cada coisa na sua época”. Que dá às coisas muito mais importância que a merecida. Foi só por isso que demorei tanto para comprar o Juvenal, o skate do mal [tenho essa mania de dar apelidos bobos às coisas que me dão tanto prazer...]. Já fazia muito que observava aqueles caras descendo a Augusta em disparada, que ouvia com prazer as rodas deslizando pelo asfalto mal amanhado da Frei Caneca ou que defendia silencioso os guris que invadiam a Paulista com seus ollies, flips e garrafas de 51.
O Juvenal, por mais que eu tenha dado a entender, não foi meu primeiro skate. Lembro que num arroubo de ousadia, contrariando todas e quaisquer expectativa, meu velho me presenteou com um skate lá pelos esquecidos 1994, 1995. Capacete, cotoveleiras e joelheiras acompanhavam aquela tábua de madeira chamada shape, mas cortada como uma prancha de surfe [lembram desse design pros danados?]. Ele era verde e eu, muito verde para me arriscar em cima daquilo tudo. Preferia a bicicleta. Daí, o skate virou meu primeiro carro de rolimã [não fantasie adaptações, tudo era muito primário], e as joelheiras e cotoveleiras foram incorporadas às partidas de futebol disputadas nos corredores do Edifício Maria Paula. Guris criados em prédios, quantos somos e de quantas neuras sofremos?
Meu segundo contato com a arte foi já adolescente, ainda sem nenhum interesse em perder dentes ou quebrar braços se não fosse jogando basquete. Eram tardes e tardes dedicadas a praticar e a admirar a destreza dos amigos em partidas de Tony Hawk Pro Skater II, ouvindo hardcore californiano, new metal e aquelas outras tranqueiras vindas na trilha [blasfemo: RATM estava lá]. Era divertido, muito divertido. Mas ainda não o suficiente para investir na compra de um para mim, que aprendesse comigo os limites do equilíbrio. Curiosamente, aos 26 anos, pareceu chegar o momento.
Então comprei o Juvenal. Sem muita pesquisa, sem muito perguntar. “Esse aqui tá pronto pra ir pra rua?”, perguntei vacilante numa loja em São José dos Campos, onde estava para ver o show da Cat Power. “Sim”. Ok, então, vamos lá.
Já de volta a São Paulo, enquanto a guria esticava o sono de domingo, eu pus um tênis, procurei uma praça vazia com espaço para cair e praticar e subi pela primeira vez em quase 15 anos num skate. E não cai. Não que não tenha caído desde então. Depois que criei coragem para demonstrar minha total falta de perícia na Paulista, com suas calçadas largas e vazias nas manhãs de domingo, já tomei dois tombos, nada muito sério. O uso da ferramenta, a companhia do amigo Juvenal tem também outro propósito – não me interesso por evoluções: meus joelhos reclamariam demais e não posso arriscar ter que ligar para o trabalho e avisar que não vou aparecer por uns quinze dias por ter quebrado a perna pulando de um batente de 50 cm para uma calçada.
Between Yellow Lines
É a mesma coisa com tantas outras coisas da vida adulta e daqueles que se expõem e buscam coisas novas: cada uma delas tem e precisa ter um espaço bem definido na tua vida. Gosto de descer ladeiras pouco íngremes e de explorar calçadas ouvindo música e desligando um tanto da vida. Ali, em cima do shape de marca desconhecida, rodando com os rolamentos de raça ignorada, sou um ser concentrado em não cair, em me deslocar, em melhorar meu equilíbrio, me “preparando” [há necessidade de preparação?] para ladeiras mais íngremes, shapes mais longos, deslizes como os do surf. Não busco a necessidade do capacete, ou da destreza dos rodopios. Muito menos encher o saco dos pedestre da Paulista. Já me basta apresentar para o meu corpo um novo limite, e atingi-lo. Já me delicia dar à minha mente uma nova fonte de coceiras. Eu quero mais é deslizar…
Não perde o sono por nada. Cerveja para os dias quentes, Jack Daniel's, para os frios. Skate depois de velho. Traz o carnaval na aliança.
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