postimg
Oct 2010 22

texto: participação especial do Trecker.

é como se eu tivesse ficado vinte dias olhando pra porta, esperando pra bater. daí, quando ela é aberta, não tem muito como entrar na hora e eu te agarro ali mesmo e não largo por cerca de duas, três horas e quero ter a certeza de que tá tudo ali. uma aspirada profunda na tua nuca que arrepia até a estante, a mesa, o passa-pratos, o meu lugar no sofá, a cadeira que virou minha, o meu canto na cama. é só depois que a casa inteira se arrepia que eu consigo pensar “hm isso é bom, esse lugar é bom, acho que já dá pra entrar e depois a gente vê como é que faz pra sair.”

são vinte dias de sono. vinte dias esperando são vinte dias de sono. depois que eu chego são dias de amnésia e meu pai me liga no último deles pra saber se eu tô vivo e eu preciso pensar pra responder, porque no fundo não importa.

nada importa, na verdade. o que importa é que pensaste que meu vôo chegaria quinze minutos antes do previsto e mandaste mensagem já desesperada quinze minutos depois e precisaste deitar um pouco pra se acalmar. o que importa é que quando cheguei tu estavas de pijama.

e a cama. porra, o que importa é a cama. ainda que tu tenhas ido comigo até o aeroporto naquela primeira vez, a sensação é de que tinha deixado-a na cama esperando esse tempo todo. e aí decidimos que não é importante sair da cama e passamos o tempo todo ali. e depois tu deitas nua em cima de mim e eu sinto teu peso inteiro no peito de um jeito bom e falamos sobre tudo e o que é dito não importa desde que seja dito e tua voz não pare nunca e que a conversa faça vez em quando que tu levantes a cabeça pra me olhar melhor ou pra sublinhar alguma careta que tu estejas fazendo por conta de algo que eu disse.

é esse levantar da cabeça e são essas caretas e é o teu peso no meu peito que me alimentam enquanto estou longe e fazem com que, mesmo distante, eu queira falar tanto quanto possível sobre tudo. e é isso o que faz com que eu consiga me sentir tão perto de ti ao conversar por escrito. sorte minha conseguir deixar incrustado no córtex essas imagens e o teu cheiro e o teu peso exato no meu peito.

estás ainda nua deitada em cima de mim quando uma parte da tua história me tira o chão e eu boto o kind of blue pra tocar. e tuas costas nuas estão ao alcance da mão e enquanto eu volto pro lugar tamborilando os dedos na tua omoplata acompanhando o trompete, depois o sax, depois o baixo tu não dizes nada e só ficas ali pensando não sei em quê. e o disco começa e termina sem que ninguém diga nada, exceto quando, tentando esconder o nervoso, comento algo sobre isso ou aquilo ou sobre quando fui ao show do jimmy cobb, mas tu não dizes nada e eu continuo dedilhando nas tuas costas.

Todos

Escrito por Ian Black, Gabriel Louback, Pedro Jansen e Renmero Rodrigues.

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  • L

    cacete, que lindo.

    • http://www.gabrielouback.wordpress.com Gabriel Louback

      o Trecker agradeceu aqui :)

  • http://isabellices.com isabella

    ai… doeu de amor aqui… <3

    lindo… e todos escreveram? caramba! lindo, lindo!

    • http://www.gabrielouback.wordpress.com Gabriel Louback

      então, na verdade foi o Trecker, Isabella. o ‘Todos’ como autor é que não temos ainda um usuário ‘convidado’ hehehe.

      mas o guri manda bem mesmo ;)

  • Anonymous

    Aiiii….como falar pro meu guri que me apaixonei por um desconhecido hahhaa brincadeira… lindooo texto lindo demais………